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O Cemitério de Praga, por Umberto Eco

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Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades do Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, o aumento gradual daquela falsificação conhecida como Os Protocolos dos Sábios Anciãos de Sião, que inspirará a Hitler os campos de extermínio, jesuítas que tramam contra os maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam os padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que entre os vapores do absinto planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras.







Umberto Eco é um escritorfilósofosemiólogolinguista e bibliófilo italiano de fama internacional. É titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha e é considerado um dos nomes mais importantes da semiologia ainda vivos. Com uma escrita original, onde mistura realidade com ficção, foi autor de clássicos como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault.  


Em O Cemitério De Praga o autor nos apresenta à uma trama ligada fielmente à história da Europa, onde todos os documentos e personagens citados são reais, com exceção de Simone Simonini, o protagonista. Mas mesmo o personagem principal pode confundir o leitor, pois pratica atos reais, que foram, de fato, exercitados por outras pessoas. O livro funciona como um autêntico diário de uma pessoa com uma espécie de amnésia, portanto pode parecer ao inicio um livro confuso e chato. Mas confusa é a exata definição de como está a mente do senhor Simonini.


Depois de ter se envolvido em mais tramas do consegue contar, Simonini vêm sofrendo de lapsos de memória. Eventualmente ele conhece um jovem, chamado Sigmund Freud, que o recomenda iniciar um diário, voltando alguns dias no tempo para tentar descobrir a origem desses lapsos. Porém a mente de Simonini está muito fragmentada, e ele não consegue lembrar de boa parte das coisas que fez nas ultimas semanas.


Ao ler o "diário" de Simonini também nos deparamos com os relatos de outro personagem, o abade Dalla Piccola, o que acaba por ser mais do que confuso, uma vez que o velho abade está morto, e pelas mãos do próprio Simone Simonini.


Simonini é um homem odioso, um dos personagens mais repulsivos de toda a literaturara, ficando para trás apenas de Joffrey Baratheon d'As Crônicas de Gelo e Fogo. Além de odiar as mulheres, por considera-las seres contaminosos, também odeia os judeus. Chegando a cogitar uma utópica eliminação de todos os judeus da face da Terra na seguinte passagem:



“Um dia será necessário tentar a única solução razoável, a solução final: o esterminío de todos os judeus. Até as crianças? Até as crianças. Sim, eu sei, pode parecer uma ideia típica de Herodes, mas, quando se lida com a semente ruim, não basta cortar a planta, convém arrancá-la. Se o senhor não quer mosquitos, mate as larvas.” p. 301

Podemos dizer que Simonini é um nerd ao maior estilo "noir", pois odeia sexo e ADORA COMER, o que faz o livro nos apresentar infinitas descrições de refeições. Mas além dessas características odiosas, ele também é um excelente falsificador de documentos. Um mestre da conspiração, e especialista em reproduzir a grafia de outras pessoas. Em toda a narrativa Simonini envolve-se em complôs contra judeus e maçons, falcatruas religiosas, conspirações, rituais satanistas, assassinatos, explosões e engana praticamente todos os personagens que encontra. Do estereotipo vilão da novela das 8, que tem como objetivo simples se dar bem. E é com isso na cabeça que ele começa a participar de conspirações políticas, com revolucionários como Garibaldi. Após isso, muitas outras conspirações batem em sua porta, e ele participa com prazer – não por gostar de conspiração, mas por amar a vida boa que o dinheiro lhe dava. Uma dessas conspirações é a origem dos seus lapsos de memória, e como de costume eu não vou contar.

A ideia do autor foi criar um livro histórico, e contar a obscura trama por trás da criação dos execráveis Protocolos dos Sábios de Sião, uma conhecida falsificação geralmente atribuída ao serviço secreto da Rússia czarista, a Okhrana. Os escritos, que se acredita terem sido baseados em um texto francês, descreviam um suposto plano para a dominação mundial pelos israelitas. E serviriam de inspiração a Hitler para os campos de concentração.


Obs: Esse não é o tipo de literatura comum ou simples, o livro do qual eu falo é complexo e "complexo" é o sinônimo de chato para algumas pessoas. Recomendo esse livro apenas para amantes de história, e para aquelas que gostam de ler sobre maquinações ou conspirações.

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E não sobrou nenhum... / O caso dos dez negrinhos

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Confesso que sempre tive receio de ler uma obra da Agatha Christie. Isso pode soar machista, mas a impressão que eu tenho é que livros de autoras não me agradam, com exceção do vasto mundo criado por J. K. Rowling na saga de Harry Potter. Mas um dia meu primo me falou sobre ela, e ele me disse que ela é uma das autoras de maior sucesso que já esteve entre nós, seus livros podem ser encontrados em mais de 100 idiomas diferentes e já totalizaram 4 bilhões de cópias vendidas, sendo superado apenas pela Bíblia. Então eu pensei que algo de interessante devia haver na escrita dessa mulher. Meu primo recomendou “O Caso dos Dez Negrinhos”, eu li e me apaixonei.



“O Caso dos Dez Negrinhos” foi lançado em 1939 no Reino Unido, e posteriormente foi lançado nos Estados Unidos como “E não sobrou nenhum..”. É o livro mais vendido de Agatha Christie, totalizando a marca de mais de 100 milhões de cópias vendidas.

O livro nos transporta para uma pequena e remota ilha na costa de Devon. Oito pessoas foram convidadas à ilha por um casal desconhecido, identificados apenas pelas iniciais U. N. Owen. Todos os oito personagens foram atraídos para ilha por motivos diferentes, motivos esses que são retratados na primeira parte do livro, que relata a viagem de cada convidado. Ao chegarem na ilha os oito são recebidos por um casal de criados que informam que o senhor e a senhora U. N. Owen não puderam chegar a tempo e que os convidados terão de esperar. Mais tarde, depois do jantar, os hospedes ouvem uma voz que distribui acusações de assassinatos à cada um dos convidados, incluindo o casal de criados. Todos ficam indignados e apavorados ao mesmo tempo e tentam procurar informações sobre o casal anfitrião com o casal de criados, mas eles nunca se encontraram na vida e a comunicação entre os patrões e os criados foi feita exclusivamente por cartas e cheques. A única maneira de sair da ilha é de barco, mas o mar se encontra muito agitado, impedindo que qualquer barco chegue na ilha.

O terror toma conta do ambiente quando os convidados vão sendo assassinados um por um, seguindo fielmente um poema que é encontrado nos quartos dos hospedes:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon em charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de uma colméia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no zoo. E depois?.
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não sobrou nenhum.

Agatha Christie cria um clima de tensão com maestria. Ao ler o livro ficamos intrigados tentando descobrir quem é esse maldito assassino. Eu mesmo cheguei a cogitar a possibilidade dele estar se escondendo na ilha, mas em certo ponto da história os personagens fazem uma busca geral pelo lugar e percebem que o assassino é um dos convidados, mas quem?

Posteriormente a polícia chega ao local e encontra 10 corpos. Uma investigação é iniciada e então podemos ler o epílogo do livro, que se trata de uma carta do assassino, contando o porque e como ele arquitetou tal plano. O final acaba por ser surpreendente.


“E não sobrou nenhum...” ou “O caso dos dez negrinhos” é uma obra prima quando estamos falando de romances policiais. Se você nunca leu o gênero, como eu não havia lido, vai querer se aprofundar ainda mais nele. E como Agatha Christie é autora de mais de 80 livros, parece que vamos ter muito que ler pela frente.


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